Manifestação “V”, maiúsculo, de vergonha

Os amantes da Arte sabem que o sentimento causado ao se apreciar uma nova obra de arte é sempre surpreendente, podendo variar de intensidade, desde a deslumbrante admiração até a mais profunda decepção, ou até mesmo rejeição. Como engenheiros, sabemos muito bem o que é a arte, pois a própria Engenharia é a arte da aplicação de conhecimentos científicos à invenção. Muito embora nossas obras não causem os mesmos impactos daquelas produzidas pelos escritores, pintores, músicos e demais artistas no sentido estrito da palavra, somos sentimentais com as criações da humanidade, as nossas e as dos demais artistas. Porém, curiosamente, alguns dos recentes acontecimentos públicos no Brasil têm causado nível de surpresa muito similar àquele das obras de arte excêntricas, de renomados artistas, pois são tão imprevisíveis e impactantes. O que dizer dos 7x1 do jogo do Brasil contra a Alemanha ??? Somente Salvador Dali para nos surpreender tanto.


Alguém poderia supor algo mais surpreendente, praticamente surreal? O grande impacto, pelo susto e decepção inesperada, talvez um tanto similar àquele causado pelo urubu da bienal, não é mera analogia. Porém, a derrota de nossa seleção trouxe um sentimento a mais, pois fazemos parte do escrete verde e amarelo. E, além disso, sabíamos em nosso íntimo que havia alguma corrupção por trás da copa, a sinalizar alguma desgraça como castigo. Mas que castigo, hein ?? Por tudo isso, nosso sentimento pela derrota acachapante foi de imensa vergonha, a maior vergonha pública que conhecemos nos últimos sessenta anos. Noite insone. Mais recentemente, a nação recebeu outro impacto vergonhoso dessa magnitude, com a divulgação e plena comprovação do escândalo da Petrobrás, a níveis inimagináveis. Desconfiar de alguma corrupção, sempre é normal nesses casos públicos, mas quem poderia imaginar que as fraudes por lá perpetradas seriam as maiores da História, pior, da História Universal, e mais, que nenhuma autoridade responsável pela fiscalização e direção da empresa suspeitava ou percebia tal descalabro? Quanta mentira, justamente em cima da empresa que sempre foi um orgulho nacional. Nosso sentimento de imensa surpresa, vergonha e frustação desse episódio superou aquele dos 7x1, algo que, pelo visto, precisamos nos acostumar, pois começa a virar rotina no Brasil. A indignação resultante dessas vergonhosas “obras de arte” estão latentes em nossos peitos, precisamos desabafar, tomar alguma atitude. Nos sentimos parcialmente responsáveis e vítimas por tudo isso, e queremos nos manifestar, mas como ? Ainda não sabemos como, estamos aguardando uma sinalização de nossas autoridades, de alguma liderança digna de confiança. Mas nada acontece, dando a entender que nossa elite intelectual está hipnotizada, ou talvez conformada com a situação. Temos que nos acostumar com a corrupção ? Vale consignar, como diz o cientista político Rothstein, que o único honesto no jogo “podre” de um sistema corrupto não resolve a questão da corrupção. Em um sistema profundamente corrupto, cita o estudo de Rothstein, a necessidade de oferecer e exigir suborno torna-se de tal forma impregnada no “mapa mental” das pessoas que acaba tornando-se uma instituição informal na sociedade. Quando se é parado pela polícia, quando se pede um alvará para abrir um restaurante ou quando se busca um emprego público, pagar suborno ou agir de forma ilegal é o procedimento padrão em um sistema corrupto. Cláudia Wallin, jornalista, consultora radicada na Suécia desde 2003 e autora do livro “Um país sem excelências e mordomias” da Geração Editorial, editado em 2014, afirma que: “ A corrupção endêmica não é uma falha que pode ser corrigida com um ajuste técnico ou um empurrão político. Ela é a forma como um sistema funciona, e está profundamente entranhada nas regras e expectativas da vida social e política. Para reduzir a corrupção a níveis menos destrutivos – e mantê-la em tal patamar – é necessário uma reforma revolucionária das instituições.” Concordamos com a brasileira Cláudia Wallin, que discorre sobre a tal reforma revolucionária ocorrida na Suécia no século XIX e também em Hong Kong e Cingapura, a partir de 1970, motivo do progresso que hoje se observa nesses países. Será que, algum dia, o Brasil conseguirá implementar uma reforma das suas instituições para reduzir ou acabar com a corrupção ? Enfim, queremos mostrar às nossas autoridades e à nossa inerte elite intelectual que não compactuamos com a corrupção, com falta de ética e com o cinismo do alegado desconhecimento desse comportamento endêmico no país. É preciso demonstrar nossa indignação e vontade de ver implantada por aqui a tal reforma revolucionária das instituições, para livrar o país da corrupção endêmica. O Brasil é maior que suas autoridades e sua elite, o povo merece respeito e merece a vitória. Para tanto precisamos nos manifestar. Sugerimos iniciar esse movimento alterando nosso usual e alegre cumprimento de positivo para tudo e para todos. Positivo por quê ??? O que há de positivo no Brasil de hoje para nos cumprimentarmos dessa maneira ? Chega de falsa esperança, o correto hoje em dia é nos cumprimentarmos com os dois dedos em “V”, de Vergonha, em protesto contra a atual situação moral e ética do país. Mas não podemos perder de todo a esperança que sempre nos norteou, por isso mesmo, o “V” de nosso cumprimento também tem embutido o sonho de que um dia a igualdade, a honestidade, a moral e a ética serão os comportamentos predominantes no país, ou seja, virá a Vitória. Nosso sonho é um dia poder levantar as duas mãos com orgulho mostrando dois “V” “V” firmes e altaneiros, a sinalizar que a vencemos com a verdade nossa luta contra a corrupção, deixando no passado nossa vergonha da venalidade. Acorda Brasil!


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